Portland, Oregon, cidade pequena mas cheia de personalidade

Eclipsada por grandes cidades da Costa Oeste dos Estados Unidos, como Los Angeles, São Francisco e Seattle, a maior cidade do Oregon, Portland, tem personalidade própria – e se orgulha por ser excêntrica (é possível ver pichada nos muros a frase “keep Portland weird”, uma campanha em prol da cultura local). A excentricidade lá é mesmo um elogio. Sede de boas escolas de artes, tem ótimas galerias para quem quer investir no trabalho de jovens artistas. O hype gastronômico está nas praças onde carrinhos e trailers vendem comida de todo tipo e nacionalidade, de peixes frescos a cervejas. E os apreciadores da cevada têm em Portland um playground: há 35 cervejarias, a maioria aberta à visitação. Com uma natureza deslumbrante, a cidade é uma ótima opção para quem quer conhecer um pouco mais da Costa Oeste.

Gastronomia global na pracinha

Nas ruas centrais de Portland, você certamente será parado por jovens ativistas, cheios de argumentos para lhe convencer de que a causa deles é a mais urgente. É irresistível, e até engraçado. Acabei adotando um menino colombiano com uma mensalidade de US$ 20. Ali na praça principal, a Pioneer Square, ocorrem os maiores eventos da cidade, como festivais de música e uma feira de frutas, verduras e artesanato às segundas-feiras.

No centro também há alguns pontos de food carts , carrinhos de comida. Só na rua SW Alder, você encontra culinária da Bósnia, no Ziba’s Pita’s; do Vietnã, no Mai Pho; da Grécia, no Aybla Mediterran (os “gyros”, wraps gregos, são uma febre); da Tailândia, no Sawasdee; da Alemanha, no Altengartz; da Turquia, no Ali Baba’s; e vários mexicanos. Também existem carrinhos especializados em pratos, como o SomTum Gai Yang, que faz a salada homônima tailandesa de mamão verde picante. Os pratos dificilmente custam mais de US$ 10. Parece que, em Portland, ninguém está a fim de comer em restaurantes sem motor. São mais de 500 espalhados.

Bom é que a proporção de carrinhos é equivalente a de praças e parques, então sempre há um banco sobrando. Acompanhando 12 quarteirões no Centro, o South Park Blocks é uma área bucólica no meio da cidade.

A natureza, aliás, se sobressai no cenário de Portland. O Washington Park é tão grande que, quando foi fundado no século XIX, foi considerado um elefante branco: era muito selvagem para sediar piqueniques. Só depois, quando construíram passagens e iniciaram um serviço de ônibus, é que o parque se tornou popular. O transporte é mesmo necessário, pois é fácil se perder, distraído com a vegetação de coníferas. Dá para andar quilômetros sem ver uma alma viva. Dentro do parque, fica o Oregon Zoo, com mais de dois mil animais e uma área dedicada só à fauna da região, com pumas, alces e ursos.

Na paisagem, só disputam com as florestas as 12 pontes de Portland, cortada pelos rios Willamette e Columbia. Do Waterfront Park, uma espécie de calçadão à beira-rio, dá para ver a Morrison (de 1958) e a Hawthorne, uma das únicas pontes móveis que ainda funciona, de 1910. Antes de levantar, ela emite um alarme para alertar os motoristas e pedestres – o tipo de coisa que é melhor assistir de longe mesmo. No subúrbio, a St. Johns é um achado para os fotógrafos: a ponte suspensa de 1931 tem a cor verde-pálido para se misturar à vegetação. O pôr do sol a destaca mesmo assim.

A Freemont Bridge é a mais moderna, de 1973, e tem um arco “abraçando” a passagem – fica no Pearl District, área antes industrial e agora renovada com a presença de antiquários e galerias de arte em seus galpões. O bairro está no noroeste da cidade, a uns 20 minutos da caminhada do centro, e é cheio de cafés, pubs, lojas de roupa e acessórios. Galerias como a Froelick e a Dapper Frog valem a visita nem que seja só para olhar. Mas o melhor é que os preços de obras de arte são viáveis ali – já que muitos são artistas de escolas como a The Art Institute, que também tem galeria na região, entre outras.

Ainda no Pearl, a Cargo tem 1.800 metros quadrados de antiguidades e impressiona com cores vibrantes e acessórios que nem sempre dá para entender o propósito. Revistas japonesas da década de 1980? A Cargo tem. Chaleiras multicoloridas? Também. Altares, velas, móveis, sombrinhas – falta até espaço para tanta importação, principalmente da Ásia e do México. Mais discreta, a Bonnet Boutique pode facilmente passar despercebida. A pequenina loja de chapéus vende Panamás que de forma alguma se confundiriam com os do ex-namorado da Madonna Jesus Luz. Boinas e até viseiras são irresistíveis. O bairro está em efervescência e sempre tem lojinha nova.

Mas, se você é um fanático por livros, é possível que só vá conseguir aproveitar uma atração da cidade: a Powell’s, uma das maiores livrarias independentes do mundo. Os números impressionam: são seis lojas em Portland. A principal, em uma área central, chama-se “cidade dos livros”. Não à toa: são mais de seis mil metros quadrados e um milhão de livros organizados em 122 seções. Novos e usados ficam lado a lado nas prateleiras – e é possível encontrar raridades como um conto de Charles Bukowski ilustrado por Robert Crumb, publicado pela finada editora alternativa Black Sparrow Press na década de 1980. A livraria fecha às 23h, mas há relatos de clientes que quiseram passar a noite por lá.

Cidade tem 35 cervejarias, que promovem degustações

Em qualquer época você encontra um festival ou evento dedicado a cervejas em Portland. No final de julho, acontece um dos principais: o Oregon Brewers ( www.oregonbrewfest.com ), com 80 cervejarias artesanais do mundo oferecendo degustações pagas.

A região metropolitana de Portland tem mais cervejarias que qualquer outra no país: são 35. No estado inteiro, são 81. A maioria das cervejarias é artesanal, com grande quantidade de rótulos. O consumo local é significativo também: o pequeno estado é o quarto maior mercado nos Estados Unidos.

As locais mais bem cotadas ficam no sudeste da cidade. Você pode visitar a Hair of the Dog Brewing Company (61 SE Yamhill Street) e provar as variedades. Pertinho, tem a Cascade Brewing Barrel House (939 SE Belmont St). No site da última, aliás, você confere as mais recentes variedades produzidas (e o que tem em cada torneira de chope).

Outro famoso nome na cidade é o chope que foi eleito o melhor do mundo em uma votação anual da revista “Men’s Journal” americana, a lager orgânico Hopworks Urban Brewery na mesma região (2.944 SE Powell Blvd). Dá para emendar no roteiro.

Na onda dos food carts, não poderia faltar o beer cart. A microcervejaria Captured by Porches (capturedbyporches.com) é um negócio do casal Suzanne Moodhe and Dylan Goldsmith. Eles produzem oito tipos da bebida feitas com lúpulos locais, em garrafas retornáveis. Os rótulos são extravagantes mas os aromas, frutados e suaves.

Um pouco de Borgonha no Oregon

Ainda raros no Brasil, os vinhos do estado americano do Oregon vêm ganhando prestígio, especialmente os produzidos com a uva pinot noir, que ali encontra ótimas condições para se desenvolver. Outra uva da Borgonha, a chardonnay, também tem dado origem a vinhos cada vez melhores nessa região fria, com grande variedade de solo, topografia e clima, o que resulta em bebidas bastante diferentes entre si. São duas as principais regiões, cheias de vinícolas abertas aos visitantes: o Rogue River Valley, ao sul de Oregon, e Willamette Valley, mais ao norte.

O Oregon hoje tem 16 American Viticultural Areas (AVA), que são as zonas vinícolas demarcadas, atrás apenas da Califórnia, com aproximadamente cem. Um dos maiores nomes da Borgonha, pátria da pinot noir, reconheceu o potencial do terroir desse estado frio para produzir bons vinhos com essa uva, e se instalou lá. Hoje o Domaine Drouhin, em Willamette, criado em 1988, é um dos grandes produtores. Esse é um dos poucos rótulos do Oregon disponíveis no mercado brasileiro, importado pela Mistral.

– O Drouhin é o grande destaque do Oregon, superpontuado mesmo pelos franceses. Tem um quê de Borgonha, um pouco mais quente e alcoólico. Com alguns anos de garrafa, remete a alguns bons Borgonhas – diz Dionisio Chaves, sommelier do restaurante Duo, na Barra, um dos maiores conhecedores de vinhos americanos no Brasil.

Outro grande produtor é a Adelsheim Vineyard, em Yamhill County, que além de fazer um belíssimo pinot noir tem ótimos rótulos com riesling e pinot gris. É possível fazer visitas guiadas de uma hora e meia à vinícola, passando por vinhedos, tanques de fermentação e sala de barrica, onde o vinho descansa em madeira antes de ser engarrafado.

– O inverno frio e verão ameno permitem a produção de vinhos elegantes, frescos e complexos quando evoluídos. A sub-região de Willamette produz dois terços dos vinhos do Oregon, e são os melhores – comenta o sommelier, que lista seus rótulos preferidos. – Os vinhos que mais me impressionaram foram o chardonnay Cuvee Arthur 2007 Domaine Drouhin, denso mas com bastante frescor. O Iris Hill Pinot Gris 2006, tem notas de mel e flores mas é seco e com frescor excelente. Também gostei do A to Z Pinot Noir 2008 A, com boa estrutura e equilíbrio. O Pinot Noir Sophie Edition 2006 parece um belo Borgonha – cita Dionisio.

Mas não vive apenas de pinot noir e chardonnay a viticultura do Oregon. Há produtores, especialmente os mais novos, como a Abacela Vineyards, que apostam em uvas como tempranillo, dolcetto, cabernet franc e syrah.

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